Juiz de Fora / MG - quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O SURGIMENTO DA HOMEOPATIA

O SURGIMENTO DA HOMEOPATIA

(AMHMG)


A natureza transformada em medicamento
Samuel Hahnemann - A busca por um ideal médico
Nascido no ano de 1755 em Meissen, pequena cidade da Saxônia, o pequeno Samuel Hahnemann logo mostrou inclinação para os estudos. Apreciador de passeios no campo e de brincadeiras ao ar livre, seu interesse maior era aprender, e sua predileção era as plantas. Iniciou seus estudos na medicina, aos vinte anos de idade em Leipzig, organizou um herbário e desenvolveu grande aptidão para línguas. Esta capacidade ajudou-o a custear os estudos, quando deu aulas de inglês e francês. Trabalhou ainda como tradutor de livros até doutorar-se em Erlanger, Hahnemann passou uma breve temporada em Viena e trabalhou para o governador da Transilvânia. Estas atividades paralelas não o impediram de defender sua tese e graduar-se - com louvor - aos 24 anos de idade.
Concomitante ao exercício de sua profissão em várias cidades, o médico Samuel Hahnemann contribuía com diversos trabalhos para a literatura médica alemã. Sua primeira obra publicada foi "Do Tratamento das Úlceras Crônicas". Perseverante, operoso e corajoso diante dos sacrifícios enfrentados desde os tempos de estudante, ele acumulou prestígio e numerosa clientela. O nome Hahnemann despertou a atenção em sociedades científicas que o acolheram como membro, como a "Academia Principesca de Maience" e a "Sociedade Econômica de Leipzig".
Dedicado ao exercício da medicina e a publicação de traduções e livros de sua autoria, na medida em que se afastou de problemas materiais Hahnemann alimentou questionamentos e conjecturas de ordem moral, nas quais contrastava a ciência e a arte de curar, pois via na primeira o que tudo prometia, e na segunda o que negava. Os questionamentos filosóficos levaram-no à conclusão de que seria impossível continuar oferecendo aos enfermos os efeitos de uma arte que agora repudiava sem trair a própria consciência. Seu sonho agora era uma medicina que proporcionasse de fato os meios práticos e seguros do exercício, fundada em leis imutáveis, com normas e princípios estabelecidos, como alternativa às opiniões variantes das escolas clássicas.
Coerente com seus princípios e arriscando prestígio e fortuna, Hahnemann abandonou a clínica e dedicou-se obstinadamente à busca de um novo princípio para a administração de remédios no tratamento de enfermidades. Ele concluíra que a insuficiência que o angustiava era proveniente da precariedade de princípios e do vazio dos sistemas que a medicina dispunha para a humanidade. Iniciava aí seu trabalho à procura do meio certo de curar, com o qual até então ninguém sonhara.
A criação de um legado
A enfermidade de um grande amigo e a impossibilidade de curá-lo foi o estopim da motivação de Hahnemann. Um diagnóstico sombrio levou-o a prescrever remédios conhecidos na medicina clássica como heróicos numa última tentativa de salvar aquele de quem era médico assistente. O esforço foi em vão. Na manhã seguinte seu amigo morria.
O golpe duro fez com que suas dúvidas fossem sepultadas junto ao amigo. Tendo como ponto de partida os anos de prática exercida, Hahnemann decidira buscar, com base na própria medicina, a resposta para seu maior anseio: a criação de um sistema médico que representasse uma nova forma de curar.
Surge então outro dilema. Um de seus filhos adoece. O que fazer? A pergunta entranhou-se em seu espírito, e fez com que o sentimento paterno subjugasse o médico. Medicamento prescrito, filho curado. Fica a pergunta, formulada pelo próprio Hahnemann: Por que e como se realizou essa cura? Esta era a grande pergunta a ser respondida.
Atento, ele acrescentava às traduções que fazia críticas e comentários. Uma das traduções, do inglês para o alemão, foi de "A Matéria Médica", do célebre médico escocês William Cullen. A atenção de Hahnemann foi despertada para uma exposição em que discordava de Cullen sobre a ação da quina ou quinina. O impasse levou-o a criar um método inédito, o da experimentação em um homem são, quando testou os efeitos da quina em si próprio. Sua busca prosseguia.
Estudos de química, pesquisas e experimentações levaram-no a se auto-aplicar enxofre, mercúrio, beladona e outros. Seguiram-se produtos naturais, vegetais, minerais e animais, e a cada nova experimentação, a confirmação do raciocínio inicial, que o levou, após observação cuidadosa e reunião de provas documentais incontestes, a publicar o princípio da semelhança, que diz "as substâncias que produzem um gênero de febre fazem desaparecer o tipo de febre semelhante".
Sucedeu-se uma série de curas, sendo uma das mais célebres e propagadoras da nova forma de cura a do escritor Klockenbring, acometido de sério problema mental agravado pelo abuso da bebida. A cura deste homem, anteriormente tratado sem sucesso pelo ilustre Dr. Pinel, fez com que outros doentes o procurassem. Na proporção em que lhe acudiam enfermos, surgiram ataques violentos de farmacêuticos e médicos de reputação duvidosa. No entanto, nada que abalasse sua conduta, voltada então integralmente para o novo processo que desenvolvia.
A descoberta das doses infinitesimais
Quando iniciou a aplicação de seu método terapêutico Hahnemann empregava altas doses de medicamentos, como reza a prática da escola clássica, pois ainda estava ligado somente aos princípios da lei de semelhança, na dependência da analogia das manifestações do experimento medicamentoso com as do doente. Porém, como atento observador, concluiu que as altas dosagens provocavam momentaneamente um agravamento dos sintomas mórbidos, o que exigia maiores cuidados na aplicação.
A partir desta circunstância ele iniciou um processo de diminuição gradativa das doses empregadas. A própria observação, comprovada por inúmeros casos análogos, confirmaram a diminuição continua das doses, até chegar ao infinitamente pequeno. Para chegar a esta conclusão Hahnemann misturou o suco ativo de plantas com açúcar, leite ou álcool, segundo proporções determinadas por uma técnica original. Estava criado outro princípio da Homeopatia, o das doses infinitesimais, que, embora ridicularizado pelos seguidores da escola clássica, apresentou resultados muito positivos em sua clientela.
"As pequenas quantidades de substâncias, por menores que fossem, adquiriam um poder ainda bastante eficiente para produzir uma ação patogenética". Hahnemann atribuía esta conclusão ao modo de preparação, na sucção que introduzia, cujas vibrações desenvolviam na substância um poder virtual, ao qual deviam sua energia. Esta explicação, a princípio hipotética, foi comprovada pelo sucesso das doses infinitesimais, um fato real.
A constante atividade literária do criador da Homeopatia viu-se aumentada com suas incansáveis experiências e casos de sucesso. No campo doutrinário e na área medicamentosa sua biblioteca se estendeu, num crescendo que culminou no célebre Organon da medicina racional, publicado em 1810. Este foi um marco da doutrina homeopática, traduzido em diversos idiomas em todo o mundo. Outra publicação fundamental, iniciada em 1811 e concluída em 1821 foi Matéria Médica Pura.
As conferências sobre Homeopatia tornaram-se cada vez mais concorridas, o que proporcionou a Hahnemann a conquista de muitos discípulos e desafetos. Um deles, o professor Clarus, da Universidade de Leipzig, aproveitava de sua grande reputação para mover campanhas contra Hahnemann e seus seguidores. Mas esta mobilização contrária não foi suficiente para impedir a criação do Instituto Homeopático, onde os discípulos eram recebidos e conheciam a nova medicina, em cursos de seis meses de duração.
A cisão da homeopatia e a criação do primeiro hospital homeopático
Os seguidores da doutrina homeopática passaram a interpretar de diferentes formas os diversos pontos levantados por Hahnemann. Estas divergências promoveram a divisão dos homeopatas em dois grupos: os liberais e os hahnemannianos, ou pseudo-homeopatas e hortodoxos. Ele não considerava como seus discípulos os que optaram pelo primeiro grupo, e chamava os rebelados de criaturas híbridas, devido às distorções que propunham dos seus princípios. Entre as linhas divisórias, destaca-se a discussão sobre a alternância de medicamentos e o emprego de altas dinamizações.
Mesmo com uma nova frente de detratores, o já idoso Hahnemann viu a fundação do primeiro hospital homeopático, em 1832, e o fechamento do mesmo, em 1842, após uma série de problemas, que incluíam traições de médicos interessados em destruí-lo. Hahnemann viveu seus últimos anos em Paris, de onde acompanhou o crescente prestígio da nova medicina a partir da reforma revolucionária que promovera. Perfeitamente lúcido, morreu aos 88 anos, no dia 2 de julho de 1843.